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Uma manta de retalhos

 
Um saco de retalhos
 
É assim que normalmente vemos a vida dos outros, e os outros vêem as nossas, ou não? E desta máxima, não adianta tentar escapar porque não tem jeito mesmo! Olhamos os atos de todos e todos ficam na mira dos nossos, sem dó nem piedade, e temos a máxima satisfação de mostrar seus erros, mas... Se apontam algum nosso, entra areia na conversa, ela se torna áspera, ríspida, e até por vezes, deixa marcas profundas que nada consegue polir.
 
O mais interessante é que no saco de retalhos dos outros, só conseguimos na maioria das vezes enxergarmos os pretos, cinzas, escuros, enquanto pensamos que no nosso só têm coloridos. Ficamos também imaginando de como vai ficar a colcha final daqueles retalhos, e se os outros seriam capazes de com ela se cobrirem. A nossa deverá ficar uma beleza, embora não tenhamos coragem de começar a sequer alinhavá-la, muito menos costurá-la. Normalmente também tecemos na imaginação a facilidade da costura dos outros porque será difícil fazerem uma perfeita combinação, porque afinal de contas, não tem muitas cores para combinar, e ficamos a sentir a sensação de que a nossa será mais bonita, mais leve, alegre e colorida.
 
Deveríamos imaginar um pouco mais, e quem sabe sentir que estamos realmente enganados. Para isto, entretanto, seria preciso também deixar de lado a idéia de que só nossa colcha interessa, e lembrar de que não colocarmos um pouco das cores dos retalhos dos outros, ficará a nossa sem contraste, sem vida, embora florida e colorida. Sou capaz até de arriscar uma proposta. Que tal se você trocasse comigo uns pedaços de retalhos coloridos por outros meus pretos, escuros? Não seriam precisos muitos, só alguns poucos. Sem escolher muito também para não tornar a tarefa muito difícil e não se ficar naquela de, este não, porque este vai ficar bem na minha, então não posso dar.
 
Você daria cor e vida para a minha e eu um pouco de contraste e arremate para a sua. Seria tão difícil assim combinarmos de que, eu escolheria entre os seus retalhos e você entre os meus? Podemos tentar, ou não?
 
 
Antonio Jorge Rettenmaier, Escritor
 

 



 

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Fonte:    2011-11-07
 
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